O Arquétipo do Heroi: Dependência e Desenvolvimento por Paulo V. Bloise

Paulo V. Bloise

(Capítulo do livro "Panorama atual de drogas e dependências" organizado por Dartiu Xavier da Silveira e Fernanda Gonçalves Moreira. Editora Atheneu, São Paulo, 2006)

Há alguns meses supervisionamos o caso de um garoto de 17 anos (M), cujos conflitos inspiraram a escrever este capítulo. Sua mãe havia acabado de se casar pela segunda vez. Do primeiro ano de vida (quando os pais se separaram após muitos conflitos) até o momento, ele morara só com a mãe. O que chamava a atenção em M era um desânimo sem queixas – “estava tudo ótimo” - e as muitas horas diárias dedicadas a um treino para se tornar ninja, Lá ele aprenderia a “superar obstáculos e atacar silenciosamente”.

O garoto fracassava nos estudos, não tinha tempo para namorar e tornava-se apático a tudo que não estivesse ligado à luta: corria diariamente, nadava, fazia musculação. A observação desse caso – que não será detalhado neste capítulo - auxiliou-nos a levantar algumas questões típicas do desenvolvimento:
Como depender e se desenvolver? O que é a crise da adolescência? Por que o herói é tão valorizado entre os adolescentes? Tentaremos, a seguir, enfocar alguns aspectos do desenvolvimento na infância e adolescência, utilizando como referencial a Psicologia Analítica.

O desenvolvimento psíquico na Psicologia Analítica é denominado processo de individuação e teria como finalidade permitir que a pessoa torne-se o que ela potencialmente pode vir a ser. Este movimento, rumo a inteireza, seria instintivo e natural a todas as pessoas, embora possa ser obstruído em certas condições.

O processo de individuação seria uma contínua realização de potencialidades, um movimento em direção à realização dos padrões básicos que constituem cada indivíduo. O inconsciente seria a matriz desses padrões (Perry, 1987, p. 45).

Consideramos Self a totalidade do ser, isto é: corpo e psique, inconsciente e consciente. O objetivo da individuação seria fazer com que a consciência abarque progressivamente o Self. Ou ainda, que o indivíduo se inteire cada vez mais das partes da sua personalidade, incluindo as reprimidas e inacessíveis à consciência.

O Processo de Individuação é marcado por intensas lutas da consciência contra forças inconscientes e obstáculos do mundo externo. É compreensível, assim, que a figura do herói represente uma idealização do ser humano que empreende essa jornada.

Quando pensamos em heróis, nos ocorrem figuras fortíssimas como Hércules, astutas como Prometeu, ou poderosas como Super-Homem. Não é sobre esses ultra-seres que discorreremos, mas sobre o herói cotidiano. O bebê que suporta incômodos como fome, frio e dores incompreensíveis, tendo como única arma o choro. A criança que supera o medo de cair e aprende a andar. Nada mais ameaçador que depender integralmente de alguém para sobreviver, e ainda ter de superar esta dependência para enfrentar os desafios do mundo externo. Essas são as maiores tarefas do herói na infância e adolescência, cuja trajetória tentaremos abreviar a seguir.

A Infância

Jung criou sua teoria observando preferencialmente a vida adulta e não formulou uma teoria do desenvolvimento infantil. No entanto, enfatizou que no início da existência haveria uma predominância da dimensão arquetípica, substrato da psique comum a toda a raça humana. A criança, uma vez estabelecida a relação com os pais, aceitaria ou rejeitaria certos comportamentos parentais, de acordo com a sua predisposição inata (Tocci, 1995, 39).

Fordham transpõe para a infância conceitos formulados por Jung. Por exemplo, retoma a idéia de que os arquétipos possuem dois pólos: o instintivo e o espiritual (simbólico), e sugere que o início da experiência arquetípica se daria através do pólo instintivo. Contudo, seria através da predisposição do pólo simbólico que a criança desenvolveria idéias arcaicas, sentimentos e fantasias, sem que tenham sido implantadas nela, ou introjetadas por ela. A educação provê imagens para os arquétipos inconscientes expressarem-se na consciência. Seria através do pólo simbólico que os pais transmitiriam os padrões culturais da sociedade onde vive a criança. (Fordham, 1976, p.6)

Individuação na Infância

Ao comentar os estágios da vida, Jung (1975b) retrata a criança imersa na atmosfera psíquica dos seus pais, como se ainda não estivesse nascida por inteiro. O processo de individuação, propriamente dito, iniciar-se-ia na vida adulta (Jung, 1975b, p.391). Porém, autores mais recentes, contestam essa idéia.
Montecchi faz um paralelo entre o desenvolvimento motor e o Processo de Individuação. Se no desenvolvimento motor a criança tem potencialidades que não dependem de aprendizado, mas da ativação ambiental, o mesmo ocorreria com a individuação: ela dependeria da estimulação da realidade familiar, social e concreta à sua volta (Montecchi, 1995, p: 51).

Fordham (1976) sustenta que há um processo de individuação na criança. Este envolveria, entre outros fatores, a adaptação ao ambiente e uma maneira própria de adquirir um senso de identidade e continuidade da existência. O papel da mãe seria fundamental na Individuação, pois é o primeiro ‘outro’ que o bebê descobre.

“Por meio do contato físico e íntimo é que se promove a formação da imagem corporal e a consciência do Self e a do não-Self, progredindo para o reconhecimento do mundo interno e externo” (Fordham,1976, pp:13 a 15).

Graças à continência física e emocional proporcionada pela mãe, torna-se possível integrar os arquétipos: “A mãe ajuda o bebê a dar sentido ao mundo e a si mesmo, a transformar e modular os arquétipos [...]”. (Sidoli,1989, p.184)

O Self na infância

Existe um Self individual ao nascer? Há duas principais hipóteses teóricas a esse respeito: Self Corporal (Neumann); Self Primário (Fordham).

Self Corporal

Neumann (1995) deu grande ênfase ao estado de fusão entre mãe e filho no primeiro ano de vida. Para o autor, a criança passa por uma fase embrionária intra-uterina e outra extra-uterina, que duraria um ano após o nascimento.

No primeiro ano, o corpo da mãe seria o mundo em que a criança viveria, formando uma unidade primária composta entre mãe e filho. A divisão dos opostos, ego e Self, sujeito e objeto, indivíduo e mundo, ainda não teria ocorrido. O bebê não teria a consciência centralizada pelo ego, e só se tornaria ele mesmo quando emergisse dessa unidade. Então, transformado em sujeito, estaria apto a confrontar o mundo como outro (tu) e como objeto (Neumann, 1995, pp:11, 12 e 15).

Segundo Neumann (1995), o Self se estabeleceria quando concluída a fase embrionária pós-uterina. No entanto, haveria uma manifestação mais precoce de Self, cujas raízes estariam no plano biológico. O chamado “Self Corporal” pode ser compreendido como um aspecto funcional do Self, que é fundido à mãe. Ele regula a totalidade do organismo da criança e deve, gradualmente, deslocar-se para o interior do bebê.

Ao fim desse processo, a criança abrir-se-ia para outras relações, tornar-se-ia um ego para relacionar-se com um outro, o ‘tu’ interno ou externo. A criança deixaria de ser apenas um Self Corporal e transformar-se-ia em uma totalidade individual, o Self completo. (Ibdem, p.17)

Tocci (1995), nos dá uma idéia de como corpo e mente se desenvolveriam conjuntamente. Para o autor, o primeiro lugar de nascimento da criança é na mente acolhedora dos pais. Então, é o corpo físico da mãe e sua disponibilidade mental que oferecem acolhimento. Dentro do corpo, a mente do bebê vai se tornando viva e se individualizando, através do aparecimento de imagens ligadas à sensação de reciprocidade com a mãe. Os instintos que constroem o corpo tornam-se cada vez mais fortes, irrompem como emoções, sob a forma de sensualidade, ódio, avidez etc (Tocci, 1995, p:44)

Para Montecchi (1995), é na fase oral que a linguagem do corpo vai se tornando a raiz de onde se desenvolverão os conteúdos psíquicos e as emoções. É quando se dá a passagem do concreto à formação do pensamento, do corpóreo ao mental. Engolir-cuspir, digerir-vomitar, seria o primeiro modelo usado pelo bebê para acolher e aceitar o que sente como bom (leite=amor), e para recusar (distanciar-se, projetar) o que sente como feio e negativo. (Ibdem, p: 60)

Self Primário

Contrariando a hipótese de Self Corporal proposta por Neumann, Fordham (1976) compreende o recém-nascido como uma pessoa separada da mãe. Desde o nascimento, o bebê teria delimitações e individualidades que formariam as bases para um mundo interno. Esse conteria imagens parentais arquetípicas que sofreriam influências dos pais reais. (Fordham,1976, p.11)

Fordham (1976) descreveu o Self Primário como: “Um agregado psicossomático – um projeto para a maturação psíquica – de onde o comportamento dos recém-nascidos poderá derivar, enquanto gradualmente eles se desenvolvem em crianças, adolescentes e adultos” (Ibdem, p.11)

O Self Primário é considerado um estado agregado, estável e energeticamente neutro. Para adquirir as características dinâmicas observadas posteriormente, é preciso deintegrar-se, movimento que divide os pares de opostos em: energias criativas e amorosas, por um lado, destrutivas e agressivas, por outro. A energia liberada na deintegração produz estados instáveis de agitação, choro e desconforto, que se alternam com estados estáveis de sono e relaxamento.
Fordham acredita que o Self - considerado um sistema dinâmico que integra e deintegra ritmicamente – controlaria a si mesmo. É esse duplo movimento que geraria o ego e as outras estruturas psíquicas, a partir do Self Primário. (Ibdem, p.12)

É graças à integração e deintegração que o Self se diferencia, cria as distinções de mundo interno e externo, Self e não-Self. As experiências sensórias seriam muito importantes no processo de diferenciação do Self que, em grande parte, ocorreria pelo impacto do mundo externo sobre o Self primário. (Ibdem, p.12)

Separação e Dependência

A fim de que se compreenda uma transformação fundamental da individuação que é aquisição da independência, é importante olharmos para a relação mãe e filho no início da vida. É ela que fornece o padrão para as separações futuras. Sidoli (1989) resume dessa maneira:

“Inicialmente, nos primeiros anos de vida, retirado de uma paz relativa do ventre materno [...] introduzido num meio estranho, a ação do processo deintegrativo do eixo ego/self tende a criar um estado de pânico no recém-nascido, que ele só suporta com a ajuda da mãe. Ter as suas necessidades adiadas cria uma sensação frustrante de falta. A capacidade de tolerar essa falta varia de bebê para bebê. Ela é vagarosamente desenvolvida com a ajuda da mãe, com as atividades auto-eróticas (como chupar o dedo) e pelo fato da deintegração ser seguida, repetidamente, pela integração”.

“O sentimento de separar-se da mãe e sobreviver é reforçado pela confiança de que o seio, que se afasta, torna a voltar. Dessa maneira, o bebê pode aceitar a dependência e manter-se confiante enquanto espera.” (Sidoli,1989, p.10).

Tanto as necessidades arquetípicas primitivas, quanto os estados de pânico que o bebê não consegue processar, são projetados dentro da mãe por intermédio da identificação projetiva. A mãe funcionaria “digerindo” as identificações projetivas da criança, transformando-as em comunicação humana significativa. Isso formaria a base para o relacionar-se, pois o bebê saudável é geneticamente predisposto a integrar os conteúdos emocionais tornados digeríveis pela mãe (Sidoli, 1995, p. 45).

Para Stroufe, a organização interna do bebê relaciona-se à regularidade da interação mãe-filho, que depende da capacidade de resposta da mãe. É a repetição da experiência de regulação e de afeto positivo, que representa o núcleo originário do que se tornará o Self. (Stroufe, 1989, p. 93)

Uma questão importante relacionada à dependência é como o bebê vai conquistando a capacidade de ficar longe do objeto de amor.

Para superar a ilusão de ser a única dona do seio, a criança tem que receber uma quantidade suficiente de amor materno. É só depois que uma dependência segura se instala, que o bebê suporta a consciência de estar separado do objeto de amor. Esta dolorosa sensação é o início de um processo de separação-individuação, que durará a vida toda, onde a situação edípica constitui um estágio fundamental (Sidoli, 1995, 49).

Mas, o que se passa quando as expectativas do bebê não são satisfeitas? Há várias hipóteses para esclarecer esse fenômeno, que ativa diferentes mecanismos de defesa e pode levar à patologia.

Fordham conceituou as “defesas do self”, que agiriam para evitar a aniquilação do Self Primário, a totalidade psicossomática do indivíduo (Davies, 1995, p.106). Tais defesas seriam ativadas quando o bebê é exposto em demasia ao processo deintegrativo, como em um abandono prolongado. Esses mecanismos evitariam a sensação de desintegração, mas impedem uma relação com a mãe verdadeira e paralisam o crescimento. Assim, quando ocorrer a reintegração ela não se dará com a mãe real, mas com o arquétipo da grande mãe (ou a alucinação do seio, em termos freudianos). (Sidoli,1989, pp:10, 13).

Adolescência - a crise de transição

“Adolescência deriva do latim adolescere, que significa ‘crescer’ e mais precisamente do seu particípio presente, aquele que ‘está em crescimento'. De igual origem, o particípio passado do verbo, adultus, significa aquele que parou de crescer. Apesar da adolescência começar com a puberdade, ela é um fenômeno psicossocial, específico da espécie humana. Já a puberdade se caracteriza por ser um fenômeno biológico comum aos homens e aos animais”. (Dadoorian, 2000, pp: 33/4)

Para Lyard a puberdade seria análoga aos primeiros anos da vida quanto à amplitude das modificações biológicas e impulso de crescimento, tornando o indivíduo um estranho a si mesmo.

Em virtude da inoperância dos velhos esquemas e da grande intensidade das transformações vigentes, um processo arquetípico é ativado, possibilitando ao indivíduo revisar as suas posições existenciais. Na crise da adolescência, “o eu encontra a oportunidade de reconsiderar sua relação com a imago parental” graças a uma nova carga de libido, de origem arquetípica. (Lyard, 1998, p.156).

A mesma idéia de crise é abordada por Kiepenheuer (1990) que a atribui, em grande parte, às mudanças físicas radicais do período. Nessa revolução, o medo de se deparar com o mundo externo ao lar e a sensação de se perder a segurança parental são bem freqüentes. (Kiepenheuer, 1990, p.5)
Kiepenheuer (1990) refere-se aos padrões arquetípicos recorrentes na puberdade, tais como, o ímpeto para desafiar, a busca espiritual e a necessidade de aceitação em uma comunidade. Além desses padrões, o analista cita: solidão, morte e renascimento – que revelam a necessidade de separação do que era conhecido e familiar. (Ibdem, pp: 10/11)

Para Neumann (1973), o medo de morrer marcaria a transição entre a inconsciência infantil e a adolescência, pois o ego, ainda em desenvolvimento, sentiria a supremacia dessa inconsciência como um grande perigo. No entanto, quando o ego torna-se pronto a agir e distanciar-se da inconsciência infantil, há uma experiência de solidão. “É o fim da situação paradisíaca, da sensação de que a vida encontrava-se regulada por algo maior” (Neumann, 1973, p.11).

Sexualidade: Anima e Animus

A busca de uma relação sexual costuma ser empreendida na adolescência, muitas vezes, carregada de conflitos e desencontros. Ciúmes intensos, paixões violentas e trocas sucessivas de parceiros fazem parte do início da vida amorosa.

Jung descreveu no homem, qualidades psíquicas femininas (anima) que possuiriam três origens: a relação que estabelece com a mãe e, posteriormente, com as outras mulheres; aspectos femininos reprimidos; uma imagem arquetípica (inata) de mulher. O mesmo fenômeno ocorreria com as qualidades masculinas da mulher (animus).

A aquisição da sexualidade genital e a intensidade do desejo sexual são questões centrais da adolescência. Kiepenheuer (1990) e Byington (2002) atentam para um fato comum no início desse período: a aproximação com os membros do mesmo sexo, ou homoafetividade.

“Isto não é homossexualismo, mas uma expressão da totalidade que ainda mantém o masculino e o feminino juntos”. Para Kiepenheuer (1990) haveria ainda um longo caminho de desenvolvimento físico e sexual, até que o outro interno (anima e animus) pudesse ser encontrado no sexo oposto. Só com a maturidade - que implicaria enfrentar os medos de abandono e não ser amado – haveria a possibilidade de união entre os sexos. (Kiepenheuer, 1990, p.6)

Segundo Byington (2002), no início da puberdade, a anima e animus tenderiam, predominantemente, a homoafetividade. Só mais tarde, durante a adolescência, é que haveria um aumento gradual da heteroafetividade. (Byington, 2002, p. 43)

Com o aumento da sexualidade na adolescência, o conflito edípico torna-se mais proeminente. Tanto a interdição ao incesto, quanto o desejo de encontrar um parceiro, impulsionam o indivíduo para longe da família a buscar a sua independência (Jung, 1976, p. 154).

Sidoli (1989) considera a conquista da identidade genital a maior tarefa do desenvolvimento psíquico, pois: “Tendências regressivas inconscientes podem reverter esse movimento, mantendo o adolescente ansioso e preso aos pais”. A autora aponta que é freqüente os pais se tornarem angustiados pela identificação com o adolescente, ou graças à reativação de seus conflitos inconscientes não resolvidos na adolescência. (Sidoli,1989, p.167)

Neumann (1973) procura demonstrar como o aumento de consciência e a ativação arquetípica adolescente influenciam na procura de um parceiro. Para o autor, essa fase é marcada por uma transferência da libido que advém tanto do interesse consciente aplicado nos objetos (realizado pelo ego) quanto pela intensa projeção de conteúdo arquetípico. As projeções mais importantes desse período seriam a anima e o animus, que depois de ativadas e projetadas, são enxergadas no mundo. (Neumann, 1973, pp: 406 e 407)

A luta pela separação

A separação é uma questão de grande importância na adolescência. O ingresso no mundo adulto requer a conquista progressiva da autonomia econômica, intelectual e emocional que, como vimos, dependem das experiências precoces da relação mãe-fliho.

Para Sidoli (1989) não há auto-realização sem enfrentar-se o conflito união e separação. “Separar-se e unir-se novamente à mãe propicia ao bebê construir um senso interno e externo de espaço e tempo que, por sua vez, permite que o processo de separação e individuação se instale.” (Sidoli,1989, p.184)

O período de preparo para que o adolescente ingresse no mundo adulto e lá se mantenha às próprias custas, parece estar se alongando nas últimas décadas. Nas sociedades pré-industriais, os garotos caçavam e guerreavam e as meninas ocupavam-se do lar e da colheita. As sociedades modernas oferecem uma grande diversidade de escolhas e cobram, cada vez mais, um preparo acadêmico longo. Se há algumas gerações,poucos cursavam universidades, hoje exigem-se pós-graduações e extensões duradouras.

Antes de nos tornarmos adultos, é preciso que elaboremos as forças regressivas e as inseguranças inconscientes que nos mantêm presos à condição de filhos: “O jovem deve penetrar no útero do inconsciente (a mãe terrível) e lá destruir as adaptações infantis e dependências parentais”. Então, às suas próprias custas, ele emergirá com a independência e a atitude adulta. (Wickes, 1978, p.118)

Elaborar os comportamentos infantis seria de suma importância para o jovem deixar a infância. “A ‘mãe terrível’ dos mitos antigos é a força regressiva inconsciente que conduz o homem para caminhos mais seguros (porém) mais infantis [...] O dragão deve ser assassinado, o herói deve descer às cavernas escuras maternas para destruir o monstro, a jornada noturna sob o mar deve ser empreendida” (Ibdem, p.117)

Campbell nos explica como esse drama psíquico se expressa nos mitos de diferentes culturas. Inicialmente, o herói deixa o ambiente familiar e chega a um limiar, como a margem de um lago. Então, ele pode ser tragado e ressuscitado, como Jonas engolido pela baleia, ou ele irá se defrontar com o poder das trevas e matá-lo, como São Jorge. Só então, o herói estará apto a seguir uma nova vida. (Campebell, 1990, p. 155)

A mesma idéia – a necessidade da criança libertar-se do mundo imagético e misterioso do inconsciente coletivo - é abordada por Adler (1966). A tarefa inicial seria suplantar a fascinação produzida por essas forças inconscientes e construir a personalidade desenvolvendo o ego que ainda se encontra fragmentado. A agressividade, às vezes, desenfreada do adolescente, estaria ligada a esse movimento de ruptura: “É na puberdade que a quebra decisiva da identificação com os conteúdos da psique coletiva ocorreria e com ela, a entrada no mundo do ego individual” (Adler, 1966, p.122).

Em contraposição ao impulso para a independência, haveria uma forma sutil e invisível de criar dependência entre a criança e seus pais: o incesto psicológico. Sidoli (1995) nos lembra que Jung, em Símbolos da Transformação, descreveu a regressão da libido na adolescência usando a metáfora do incesto. Essa forma de incesto atrapalharia a diferenciação psicológica e manteria o jovem ligado aos pais além da adolescência.

Este fenômeno seria mantido por determinados valores coletivos, por exemplo, nas culturas onde a separação é vivida como traição à família. Os padrões incestuosos do inconsciente coletivo estariam ligados à sobrevivência da espécie, mas seriam nocivos aos indivíduos, pois se opõem à individuação (Sidoli, 1995, p. 44).

De uma forma geral, a maturidade dos pais é decisiva para que o adolescente se separe gradativamente da família. Lapsos no desenvolvimento parental, fases não vividas e conflitos não elaborados por eles no passado podem obstruir o processo.

Projetar expectativas frustradas, satisfazer necessidades próprias por intermédio dos filhos e exigir a gratidão pelos cuidados oferecidos, são alguns dos problemas citados por autores como Kiepenheuer (1990) e Wickes (1978).

Ao tentar sintetizar a crise da adolescência, Byington (2002) inclui dois grandes eventos psíquicos: a elaboração das identificações infantis e a intensificação das características ligadas à identidade profunda. Se o primeiro fenômeno envolve a atitude de contestar e a experiência da perda, o segundo liga-se à criatividade e a inovação. Uma das explicações apontadas pelo autor, de se andar em grupos na adolescência seria, justamente, reforçar a implantação dessas inovações: auxiliar a luta individual e coletiva do novo contra o velho, do revolucionário contra o tradicional. (Byington, 2002, p. 39)

Os Rituais

Nas sociedades tribais, todas as situações importantes eram apoiadas pelos ritos. Eles auxiliavam o nascimento, o casamento, a menopausa e o envelhecer. Graças a eles, aprendia-se a enfrentar as dificuldades que as transições produzem.

Segundo Neumann (1995) o indivíduo que consegue identificar-se com as tradições do grupo a que pertence entende melhor seu papel na vida. E, também, encontra mais facilmente uma função na sociedade. Se os momentos de transição eram vividos no passado como um problema grupal, agora tornaram-se um problema individual. A pessoa, além de se esforçar para compreender a crise que passa, tem que achar, solitariamente, uma solução: “antigamente, todos os estágios da vida eram pontos numinosos nos quais a coletividade intervinha com seus ritos; hoje em dia, são pontos de distúrbios psíquicos e de ansiedade para o indivíduo, cuja percepção consciente não é suficiente para habilitá-lo a viver a própria vida”. (Neumann, 1995, p.147)

Wickes (1978) enfatiza a importância dos rituais coletivos e sugere que ao individualizar-se a transição, torna-se mais difícil para o jovem libertar-se das amarras conscientes e inconscientes parentais. (Wickes, 1978, p.101)

Durante a transição, o jovem necessita desprender-se da importância e valores dos pais e adquirir os próprios. Neumann (1973) aponta que nos rituais coletivos, havia um deslocamento e projeção dos arquétipos parentais para a sociedade. Por exemplo, o arquétipo paterno projetado na figura dos mestres e professores e o materno nas comunidades e nas igrejas. (Neumann, 1973, p.407)

Um dos critérios de ser adulto é sair do círculo familiar. A adolescência marcaria um renascimento e teria como simbolismo o herói, “que se regenera através da luta com o dragão”. (Ibdem, p.408)

Nos rituais de transição, pode-se perceber o símbolo do arquétipo do herói e a luta por ele enfrentada. Mas, o que seria essa luta? Tanto Jung como Neumann referem-se a ela como a batalha com a “mãe dragão”. No entanto, essa mãe não seria reduzida a mãe pessoal, mas, em seu sentido mais amplo, a fonte geradora da vida - A Grande Mãe, ou seja, o estado de inconsciência original a partir do qual se desenvolveria a consciência.

Para Neumann (1973) o inconsciente com sua característica de dominação, castração e devoração, representa um perigo a ser enfrentado pelo herói. O inconsciente se mostra nos mitos como um monstro, um gigante ou outras figuras normalmente bissexuais, como o uroborus. Esses mitos indicariam que o herói teria ambos os Pais Originais para enfrentar. A estabilização final do ego, que é uma conquista gradual, dependeria dessa luta contra a mãe dragão na puberdade (Neumann,1973, p.170 e.408).

Herói e assassinato dos pais

Etimologicamente o herói seria o guardião, o defensor, o que nasceu para servir. Na linguagem contemporânea ele tem o sentido de guerreiro, está ligado à luta e as outras funções como a adivinhação, a fundação de cidades além de introduzir invenções aos homens, como a escrita e a metalurgia. (Brandão, 1987, pp. 13, 41 e 53)

Para Jung (1986) o herói seria o mais nobre de todos os símbolos da libido, a idealização de um ser física e espiritualmente superior aos homens, que o representaria em sua totalidade arquetípica. (Jung, 1986, pp: 52,157 e 163)

A função do arquétipo do herói, segundo Vargas (1987), é fundamental para a estruturação da consciência: “Sempre que algo de novo e transformador vai se implantando em nossa consciência pessoal e coletiva, algum dinamismo heróico deve ser ativado”. O autor defende que a adolescência seria um período típico de ativação do arquétipo do herói para realizar a batalha da libertação do mundo parental (Vargas, 1987, pp: 10 e 11).

A busca adolescente de um estilo original de vida e a tentativa de estabelecer a identidade segundo valores próprios estariam ligadas à constelação do arquétipo do herói:

“O fã adolescente tende a criar seus próprios heróis. A identificação com eles provê um modelo suportivo de pessoas que cumpriram com sucesso a tarefa que o adolescente está atravessando. Essas figuras idealizadas de heróis são aquelas com quem o jovem pode espelhar-se – em oposição aos pais, os desvalorizados heróis do passado, que precisam perder seus papéis idealizados e serem deixados para trás, junto à dependência infantil a eles [...]” (Sidoli,1989, pp:163/164).

Em paralelo ao padrão arquetípico do herói, haveria o do sacrifício, constelado em muitos rituais de iniciação, sonhos e fantasias de adolescentes. Lembramos que os vídeo games, as histórias em quadrinhos, que tanto fascinam os jovens, abordam repetidamente os mesmos conflitos: batalhas conta o mal, mortes, abandono, perda e desafios.

As situações de conflito que surgem nas fantasias e sonhos adolescentes,  podem ativar imagens arquetípicas inconscientes da morte da criança e do assassinato dos pais. Essas imagens expressariam a luta para se terminar a infância e se entrar na adolescência.  Nesse momento, se o jovem não operar no plano simbólico, isto é, se não perceber que o que deve morrer é a sua atitude infantil, surge o perigo real de suicídio, considerado um grande risco na adolescência. (Ibdem, p.164).

Para que se adquira plenamente a potência genital é necessário “livrar-se dos pais e tomar-lhes o poder”. Nesse sentido, “o assassinato dos pais” poderia ser tanto uma fantasia inconsciente pré-edípica como edípica, que é regressivamente ativada na adolescência. (Ibdem, p.165).

“Se o que existe na fantasia do crescimento primitivo (infantil) é morte, então na fantasia adolescente existe assassinato. Mesmo quando o crescimento no período da puberdade continua sem maiores crises, a pessoa pode precisar lidar com problemas graves, pois crescer significa tomar lugar dos pais. E realmente o faz. Na fantasia inconsciente, a agressividade é inerente ao crescer”. (Winnicot, 1989, p. 128)

Porém, na adolescência, não haveria somente a morte simbólica dos “pais da infância”, mas também da criança, segundo Byington (2002). “Outra criança nascerá na adolescência, que não será infantil, mas a fonte da inocência, do lúdico, da criatividade, da curiosidade, da entrega e vitalidade durante o resto da vida”. Esta nova criança, assim, não representaria a infantilidade, mas simbolizaria o Arquétipo da Criança. (Byington, 2002, p. 56)

Herói e reparação maníaca

Até agora, enfatizamos os aspectos positivos e idealizados do arquétipo do herói. A instância psíquica que realiza a batalha com o estado de inconsciência original, que luta para diferenciar-se dos valores parentais e estabelecer uma identidade própria.

Contudo, é possível pensar em outras funções para o arquétipo do herói que, em condições patológicas, pode ser ativado desde a infância.

“Quando a mãe não supre as necessidades do bebê, e prevalecem as experiências más, forma-se um casal de pais maus no mundo interno do bebê. Ativa-se uma cena primária negativa, e os pais protetores e nutritivos se transformam em monstros assassinos”. Nessa circunstância, as qualidades do herói apareceriam pela necessidade da criança lidar com os pais transformados em inimigos devastadores. Com o passar dos anos, ao entrar na adolescência, reativa-se a cena primária negativa e as experiências de abandono e rejeição voltam à tona (Sidoli, 1995, p. 46 e 51).

Uma outra característica ligada ao herói é o estar sempre em ação. Esse mecanismo de defesa típico adolescente tenta afastar a tristeza, a culpa e a preocupação, mas destrói a capacidade de reflexão.

“É uma forma de sair rapidamente da ambivalência, uma defesa regressiva que leva o adolescente de volta a estados infantis. Ao mesmo tempo, através do sentimento de poder que a ação transmite, o adolescente tende a experimentar uma sensação de triunfo onipotente e arrogância[...] (Ibdem, p. 52).

Miranda Davies (1995) também sugere que determinadas atitudes heróicas funcionam como uma defesa a dependência, impotência, depressão e desamparo. A autora faz uma relação entre os mitos de herói estudados por Jung em Símbolos da Transformação e o jogar maníaco que observa em seu consultório, garotos passando-se por Batman, Super-Homem, etc. “Se um garoto usa muito esse mecanismo quando frustrado e ansioso, ele tende a entristecer-se e perceber-se mal equipado para lidar com a realidade” (Davies, 1995, p83).

Ao que nos parece, M, o caso mencionado no início deste trabalho, utilizou-se desse tipo de recurso contra as ameaças que sentia. Estas provinham, inicialmente, de ambas figuras parentais. Sua mãe, apesar de disponível e próxima, não conseguia colocar-lhe limites. Já o pai manteve-se abandonador, pois, nos poucos contatos que fizera, era distante afetivamente, exigente nos deveres e agressivo quando contrariado.

Além das figuras parentais algo ameaçadoras, a adolescência exacerbava-lhe o conflito edípico. M, que nunca havia se deparado com um rival, teve que aceitar o padrasto em sua casa. O rapaz, desvitalizado nas lutas da sua etapa de vida, como encontrar uma companheira, ou vencer os estudos, dedicava-se com afinco a ser um samurai moderno. Negava assim, a sua dependência e impotência.

O fim da adolescência

O final da adolescência se daria quando o jovem sente-se seguro e não precisa mais do seu grupo para auto-afirmação. Isso, normalmente, ocorreria com o estabelecimento do primeiro amor estável. (Dadoorian, 2000, p. 52)

Como vimos anteriormente, a luta simbólica com o dragão relaciona-se à libertação da infantilidade para se ingressar no mundo adulto. Isso inclui transferir a libido presa aos pais e deslocá-la para um companheiro ou companheira. Em relação aos meninos, Neumann (1973) sustenta que quando a anima se descola da mãe na vida real e a sua importância é eclipsada pelo encontro de uma “parceira de alma”, ocorre normalmente a conclusão da luta com a mãe dragão”. (Neumann,1973, p.408)

A capacidade de trabalhar e sustentar-se são condições fundamentais para o indivíduo tornar-se adulto. A contribuição social funcionaria, também, para reparar e diminuir o sentimento de culpa referente aos impulsos agressivos inconscientes ligados às ligações objetais e ao amor. (Winnicot, 1989, 128)

Considerações Finais

Com o presente trabalho, procuramos ressaltar alguns aspectos do desenvolvimento considerado normal, dando ênfase à aquisição da independência. Essa só é possível quando o bebê estabelece uma dependência segura com a mãe, e então, consegue progressivamente suportar a sua distância. A função paterna, imprescindível para se integrar a noção de limite, organização interna e valores morais, não foi discutida por limitação de espaço.

Lembramos que quando nos referimos a mãe ou pai, não estamos considerando apenas as relações biológicas, mas as pessoas que exercem  funções maternas ou paternas.

Alguns fatores como o abandono materno e uma estrutura geneticamente desfavorável podem bloquear a aquisição da independência.

Na crise da adolescência ocorrem tendências regressivas com a reativação dos antigos padrões de dependência. O medo de manter-se preso aos pais e a ameaça do incesto causada pela intimidade da vida em família num momento de forte apelo sexual, impulsionam o jovem à sua independência.

O arquétipo do herói é fundamental para se realizar essa passagem, contudo, ele pode ser ativado em situações patológicas. Excesso de ação, atos de bravura evitam o sofrimento e a culpa, mas podem impedir o desenvolvimento. é o que nos pareceu o caso mencionado o do jovem ninja. Guerreiro adolescente que procurava combater o obstáculo do padrasto e a dependência materna, com socos e armas brancas.

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